Há 111 anos, em 28 de julho de 1915, os Estados Unidos invadiam o Haiti, dando início a uma ocupação militar que se estendeu por quase 20 anos e trouxe consequências desastrosas para a nação caribenha.
Embora Washington justificasse a ocupação como uma missão para restaurar a ordem e garantir a estabilidade, o verdadeiro objetivo era proteger os interesses econômicos das corporações norte-americanas.
O Haiti foi convertido em um regime militar, permanecendo sob lei marcial por 14 anos. A Casa Branca ordenou a dissolução do Parlamento Haitiano e forçou a adoção de uma nova Constituição que permitiu que os estrangeiros se apoderassem das terras e dos recursos naturais do país.
Os norte-americanos reintroduziram a escravidão no Haiti, forçando os camponeses ao trabalho compulsório na construção de estradas e em obras públicas. Os opositores da ocupação foram torturados, massacrados e encarcerados em campos de concentração. Estima-se que mais de 15.000 haitianos foram assassinados no período.
O Haiti pós-independência
Submetido ao domínio colonial europeu durante três séculos, o Haiti conquistou sua independência em 1º de janeiro de 1804, após 12 anos de guerra contra a França. Triunfante por meio da luta dos escravizados, a Revolução Haitiana deu origem à primeira república negra independente do mundo. O Haiti foi também a primeira nação das Américas a abolir a escravidão.
A façanha dos haitianos teve profundo impacto na história mundial, desafiando as estruturas do colonialismo e influenciando levantes de escravizados e movimentos em prol da liberdade em todo o continente. O país, no entanto, pagou um preço alto pela conquista da liberdade.
A nação de negros livres causava espanto em um continente dominado pela escravidão. O Haiti foi submetido a décadas de isolamento diplomático e econômico e, durante mais de 120 anos, foi forçado a pagar uma indenização colossal à França, destinada a compensar os antigos proprietários de escravos pelas perdas sofridas com a independência.
Os haitianos também sofreram com o boicote dos Estados Unidos. Receoso da influência subversiva que a Revolução Haitiana poderia exercer sobre os escravizados em seu país, o presidente Thomas Jefferson, recusou-se a reconhecer a independência haitiana. O Congresso dos Estados Unidos proibiu o comércio com a ilha e determinou um embargo econômico contra o Haiti que se estendeu por meio século.
As dívidas, as sanções e os embargos drenaram as receitas nacionais do Haiti ao longo do século 19, comprometendo os investimentos públicos e contribuindo para o permanente desequilíbrio fiscal do Estado. Até as primeiras décadas do século 20, o Haiti destinava cerca de 80% de sua receita anual para o pagamento da dívida externa.
O país também viveu sucessivas disputas entre diferentes facções políticas e militares. Presidentes eram frequentemente depostos por golpes de Estado, rebeliões regionais ou assassinatos, mergulhando o país em um cenário de instabilidade e anomia política. Entre 1911 e 1915, o Haiti teve sete presidentes, todos assassinados ou derrubados em quarteladas.
Os interesses dos Estados Unidos
A instabilidade política do Haiti seria um dos argumentos utilizados para justificar a postura colonialista dos Estados Unidos. Desde a segunda metade do século 19, Washington passou a tratar o Caribe como sua zona de influência exclusiva. Ainda em 1869, o presidente Andrew Johnson propôs anexar toda a Ilha de Hispaniola (onde se encontram os territórios do Haiti e da República Dominicana) como um protetorado norte-americano.
A Doutrina Monroe, proclamada em 1823 sob o lema “A América para os americanos”, passou a receber uma interpretação mais agressiva durante a presidência de Theodore Roosevelt. Em 1904, o mandatário republicano formulou o chamado Corolário Roosevelt, segundo o qual os Estados Unidos poderiam intervir militarmente em qualquer país da América Latina caso enxergassem algum tipo de ameaça aos seus interesses nacionais ou a possibilidade de interferência de potências europeias.
Essa orientação intervencionista da Casa Branca daria origem às chamadas “Guerras das Bananas”, uma série de ocupações militares conduzidas pelos fuzileiros navais dos Estados Unidos entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do século 20.
Países como Cuba, República Dominicana, Nicarágua, Panamá e Honduras sofreram sucessivas intervenções, sempre justificadas como “operações de paz” ou “em defesa de princípios democráticos” — embora, na verdade, quase sempre visassem debelar movimentos revolucionários ou derrubar governos não alinhados.
A ocupação do Haiti se insere nesse contexto da expansão imperial norte-americana. A inauguração do Canal do Panamá em 1914 elevou a importância estratégica do país, localizado junto ao Estreito de Barlavento e próximo às principais rotas marítimas do Caribe.
Os norte-americanos temiam que as potências europeias, em especial a Alemanha, que tinha forte presença na economia haitiana, estabelecessem bases navais na região. A Casa Branca considerava que o controle político sobre o Haiti consolidaria o cinturão estratégico em torno do Canal do Panamá, desestimularia a presença de rivais europeus e protegeria investimentos privados.
Havia ainda forte interesse do setor financeiro na ocupação do Haiti. Bancos norte-americanos haviam ampliado sua presença no sistema financeiro haitiano, especialmente por meio do National City Bank de Nova York, que assumira influência significativa sobre o Banco Nacional do Haiti.
Temendo que a instabilidade política levasse a uma moratória, os banqueiros norte-americanos exigiram que Washington expropriasse as reservas nacionais do Haiti. Em dezembro de 1914, militares invadiram o Banco Nacional do Haiti e retiraram quase 15 milhões de dólares em lingotes de ouro da instituição, remetendo-os em seguida para Nova York.
A invasão
O episódio que serviu de estopim para a ocupação norte-americana ocorreu em 27 de julho de 1915. Acossado por uma rebelião armada que tentava derrubar o seu governo, o presidente haitiano Vilbrun Guillaume Sam ordenou a execução de 167 prisioneiros políticos, incluindo o ex-presidente Oreste Zamor e membros de algumas das famílias mais influentes do país.
O massacre promovido por Sam enfureceu a população haitiana. Forçado a buscar abrigo na Embaixada da França, o presidente acabou sendo capturado, linchado e esquartejado pelos populares. O líder do movimento insurgente contra Sam era Rosalvo Bobo, comandante dos Cacos — grupos de combatentes armados que atuavam como milícias de chefes políticos locais e que desempenharam um importante papel na história política e militar do Haiti desde o século 19.
A possível ascensão de Rosalvo Bobo ao poder incomodava o governo norte-americano. Defensor de uma plataforma nacionalista, o líder insurgente se opunha a qualquer forma de tutela ou interferência política que ameaçasse a soberania do Haiti e defendia o fim do controle norte-americano sobre as alfândegas e as finanças do país.
Em 28 de julho de 1915, no mesmo dia em que Guillaume Sam foi assassinado, o presidente Woodrow Wilson ordenou o envio de uma divisão de fuzileiros navais para ocupar Porto Príncipe, a capital do Haiti. A invasão foi comandada pelo almirante William Banks Caperton e mobilizou 340 soldados. A justificativa oficial da missão era a necessidade de “proteger os cidadãos estrangeiros” e “restaurar a ordem”.
Nos dias seguintes, o contingente militar foi rapidamente ampliado. Portos, edifícios públicos, repartições governamentais, bancos, arsenais e alfândegas passaram ao controle direto das forças de ocupação. Em poucos meses, os Estados Unidos já tinham tomado as principais cidades do país. Os haitianos permaneceriam sob lei marcial até 1929, vivendo sob um regime militar autoritário, privados de direitos civis e garantias fundamentais.
A ocupação
Em agosto de 1915, sob pressão direta de Washington, o Parlamento Haitiano empossou o líder conservador Philippe Sudre Dartiguenave como novo presidente. Dartiguenave serviria como um mero fantoche da Casa Branca, emprestando um verniz de institucionalidade ao regime militar.
A ocupação foi formalizada no mês seguinte, quando foi firmado o Tratado Haitiano-Americano. O acordo concedeu aos Estados Unidos o controle completo das finanças e das alfândegas haitianas pelo prazo de 20 anos. O tratado também dava a Washington a prerrogativa de gerir o orçamento nacional e a administração pública e o direito de intervir no país sempre que considerasse necessário.
O Exército Haitiano foi dissolvido e substituído pela Gendarmaria, uma força militar sob comando direto dos oficiais norte-americanos. A Gendarmaria serviria de alicerce à ocupação estrangeira, subjugando os líderes políticos nacionalistas e reprimindo brutalmente a oposição ao governo militar.
Os Estados Unidos também foram responsáveis por elaborar uma nova Constituição para o Haiti, garantindo aos norte-americanos diversos privilégios políticos e econômicos. A medida mais controversa do novo texto constitucional era o fim da proibição da posse da terra por estrangeiros — uma norma que visava impedir que o Haiti fosse “recolonizado” através do poder financeiro.
O projeto causou indignação entre os deputados haitianos. Como a assembleia nacional se recusou a aprovar o texto, os Estados Unidos instruíram Dartiguenave a dissolver o Parlamento Haitiano. A nova Constituição foi então aprovada através de um plebiscito fraudulento, abrindo espaço para que os empresários norte-americanos tomassem o controle das terras férteis do país.
Outro retrocesso introduzido no Haiti pela ocupação norte-americana foi o trabalho escravo. Citando a necessidade de reformar a infraestrutura do país, os militares norte-americanos impuseram a política de corveia, um sistema de trabalho obrigatório utilizado na construção de estradas e obras públicas.
Os camponeses eram recrutados à força, mediante coerção direta por soldados ou policiais, e enviados para trabalhar longe de suas comunidades durante meses. Eles eram acorrentados, submetidos a jornadas extenuantes e castigos físicos brutais. Caso tentassem fugir dos canteiros de obras, eram fuzilados. O regime de corveia resultou na morte de milhares de pessoas e causou o descontentamento generalizado da população.
Os ocupantes também impuseram um regime de segregação racial no Haiti. Oficiais e fuzileiros navais norte-americanos enxergavam os haitianos como um povo inferior e tratavam a população com enorme desprezo e violência. A separação racial e social foi imposta em clubes, áreas de lazer e espaços públicos. Oficiais norte-americanos se referiam aos haitianos como “negros que fingem falar francês”.
: Fuzileiros navais norte-americanos no Haiti, por volta de 1919.
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A resistência
A indignação generalizada dos haitianos com os abusos dos ocupantes estrangeiros levou à criação de movimentos de resistência. Ainda em 1915, os guerrilheiros Cacos tomaram a dianteira na luta armada, lançando a “Primeira Guerra dos Cacos”.
Os rebeldes tentaram manter o controle sobre as fortalezas e áreas rurais e obtiveram algumas vitórias contra os fuzileiros navais na região de Cap-Haïtien. Com a chegada de reforços e o recurso a ataques surpresa, os norte-americanos conseguiram subjugá-los na Batalha do Forte Dipitié. Em novembro de 1915, os fuzileiros conquistaram o Forte Rivière, principal reduto dos rebeldes. A operação resultou na morte de centenas de guerrilheiros e encerrou a primeira fase da resistência.
Os cacos retomaram a luta armada em 1918, concentrando suas ações no interior montanhoso do país. A “Segunda Guerra dos Cacos” mobilizou milhares de combatentes e obteve expressivo apoio popular. Conforme relatado por Patrick Bellegarde-Smith, cerca de 20% da população haitiana atuou na rebelião.
O mais emblemático líder da resistência foi Charlemagne Péralte, um oficial do antigo Exército Haitiano que se recusou a servir sob comando norte-americano. Após escapar da prisão, Péralte organizou a guerrilha camponesa, conseguindo realizar uma série de ataques bem-sucedidos aos postos da Gendarmaria e aos edifícios da administração colonial.
Em novembro de 1919, após ser traído por um militar haitiano que colaborava com os invasores, Péralte foi capturado e executado pelos fuzileiros. Seu corpo foi fotografado amarrado a uma porta de madeira, em uma posição que lembrava a crucificação. A imagem foi distribuída pelas autoridades norte-americanas na expectativa de intimidar a população. O efeito foi o oposto do esperado, convertendo Péralte em mártir nacional e símbolo da luta contra o domínio estrangeiro.
Após a morte de Péralte, Benoît Batraville assumiu a liderança da insurgência e deu continuidade à luta dos Cacos. Ele tombou em combate em maio de 1920, durante uma ofensiva na região de Lascahobas. Embora militarmente derrotada, a rebelião dos Cacos permaneceu na memória coletiva haitiana como expressão da luta pela soberania nacional e inspirou outros movimentos insurgentes nos anos seguintes.
Os Estados Unidos responderam à rebelião com extrema violência. Armados com metralhadoras e artilharia pesada, os fuzileiros navais conduziram uma série de massacres pelo interior do país, assassinando em massa os guerrilheiros e os civis suspeitos de colaboração com a resistência. Vilarejos inteiros foram bombardeados e incendiados.
Milhares de haitianos foram encarcerados em campos de concentração e submetidos ao trabalho escravo. Mulheres e crianças sofreram com estupros em massa, torturas, mutilações e execuções sumárias. Estima-se que mais de 15.000 pessoas foram assassinadas durante a ocupação norte-americana.
Fim da ocupação
A partir da década de 1920, os abusos cometidos pelas forças de ocupação começaram a receber crescente atenção internacional. Jornalistas, missionários, intelectuais e organizações de direitos civis denunciaram os massacres e crimes cometidos pelos fuzileiros.
A crescente pressão levou o Congresso dos Estados Unidos a abrir uma investigação sobre os abusos. Embora as denúncias tenham sido minimizadas ou relativizadas pelas autoridades militares, a investigação contribuiu para desgastar politicamente a ocupação.
Em 1922, Louis Borno sucedeu Dartiguenave como presidente do Haiti e o general John Russell concentrou poderes como Alto Comissário, visando ampliar o controle sobre a gestão militar. Os abusos e massacres, no entanto, continuaram ocorrendo. Frequentemente, militares norte-americanos eram utilizados como agentes de repressão sindical, atuando em favor de corporações como a Haitian American Sugar Company e o National City Bank de Nova York.
O consenso norte-americano em favor da ocupação militar do Haiti começou a mudar a partir de 1929, quando os Estados Unidos sentiram os efeitos da Grande Depressão. A crise fiscal decorrente da quebra da Bolsa de Valores de Nova York inviabilizou a manutenção de operações militares prolongadas no exterior, ao mesmo tempo em que as críticas à política intervencionista se avolumavam.
Um novo massacre ocorrido em dezembro de 1929 desgastou ainda mais o regime militar. Os norte-americanos abriram fogo contra um protesto pacífico de trabalhadores em Les Cayes, resultando em ao menos 12 mortes. Instado a tomar providências, o presidente Herbert Hoover enviou uma comissão para a ilha e deu início ao processo de “haitianização” da gestão local.
Realizadas sem interferência norte-americana, as eleições de 1930 no Haiti permitiram a ascensão de candidatos nacionalistas. Sténio Vincent, um dos mais destacados opositores da ocupação norte-americana, foi alçado à presidência.
A retirada das tropas invasoras foi concluída em 1934, já na presidência de Franklin Delano Roosevelt, em meio à instituição da “Política da Boa Vizinhança”. Em 15 de agosto de 1934, os últimos fuzileiros partiram do Haiti. Conselheiros financeiros do governo norte-americano, no entanto, permaneceram atuando no país até 1941.



